Brasil contemporâneo · 1994

Plano Real e a estabilização monetária

A URV e o Real encerraram o ciclo clássico de hiperinflação. Fernando Henrique Cardoso, ministro e depois presidente, personificou o plano. Houve custos sociais e um debate persistente sobre câmbio, juros e desindustrialização. O consenso mínimo é que a moeda estabilizou a vida cotidiana.

Quem viveu a hiperinflação lembra o preço que mudava no corredor do supermercado, o salário que encolhia entre a sexta e a segunda, a corrida ao alimento que ainda não havia sido remarcado. O Cruzado, o Bresser, o Verão e outros planos haviam prometido o fim do pesadelo e devolvido a correção diária. Em 1994, a Unidade Real de Valor e, em seguida, o Real interromperam o ciclo clássico da inflação de três dígitos que organizava a vida brasileira desde os anos 1980. Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de Itamar Franco e depois presidente, personificou o plano. A equipe econômica — nomes que a imprensa transformou em elenco — desenhou a desindexação e a âncora. O consenso mínimo, atravessando adversários posteriores, é que a moeda estabilizou o cotidiano. O dissenso começa na frase seguinte: a que preço, para quem, e com qual desenho de país.

Esta narrativa não transforma o Real em altar de uma doutrina. Não o transforma em golpe contra o povo. Descreve um artefato de política econômica com vencedores, perdedores e um efeito duradouro: a moeda deixou de ser o problema número um da conversa nacional, e outros conflitos — terra, raça, segurança, trabalho, meio ambiente — puderam ocupar o centro do cálculo.

A vida sem preço estável

Antes do Real, o pobre sem acesso a overnight e a aplicação financeira pagava a inflação duas vezes: no supermercado e na impossibilidade de poupar o valor do dia. O assalariado via a data do pagamento virar estratégia. O comerciante remarcava. O Estado, refém da indexação, corria atrás de um fisco que se evaporava. Essa experiência cotidiana é fato histórico, tão material quanto uma batalha, e explica a adesão eleitoral que se seguiu melhor do que qualquer folheto.

Planos anteriores ensinaram o que não fazer: congelamento sem desindexação, surpresa sem pacto, moeda nova com memória da velha. 1994 aprendeu, em parte, a lição. A URV funcionou como unidade de conta que reeducou preços relativos antes da troca da cédula. O Real veio depois, com âncora cambial, juros altos e um arranjo político amplo no Congresso de Itamar. Sem esse arranjo, o plano seria decreto frágil. Sem a memória do fracasso alheio, seria arrogância técnica.

Mulheres, responsáveis em massa pelo abastecimento doméstico, viveram a estabilização como alívio concreto. Aposentados reaprenderam o mês. Crianças deixaram de ouvir a inflação como pano de fundo de toda conversa adulta. Esses sujeitos raramente entram no gráfico. Entram nesta ficha.

URV, Real e o pacto possível

A equipe recusou o milagre e vendeu a técnica. Havia contexto internacional de liquidez e, mais tarde, de commodities; havia também decisão interna. Críticos de esquerda apontaram desemprego industrial, juros, privatizações no entorno do programa e uma inserção externa vulnerável. Críticos de outra margem apontaram que o plano não teria ido longe o bastante na reforma do Estado. Defensores apontaram a queda da pobreza associada à estabilidade — não como único fator, mas como condição — e o fim da correção diária como fim de uma violência contra quem não tinha lastro.

Números exatos de inflação mensal, de câmbio e de produto variam conforme a série e o recorte. Não é necessário inventá-los para sustentar o que o arquivo e a memória concordam: os preços pararam de galopar no ritmo que destruía o salário. O debate honesto desloca-se então para a âncora. Manter o real apreciado ajudou a matar a inflação e barateou o importado. Também apertou setores industriais e preparou a fatura de 1999.

O Real conversa com 1988. Sem cidadania formal e sem Congresso, o plano seria peça de ditadura ilustrada. Sem moeda estável, a cidadania social da Constituição sangrava todo mês no balcão. Estabilizar não substituiu o SUS nem a demarcação. Impediu que ambos fossem cobrados em cédulas que derretiam.

1999, o lastro que flutuou

Em 1999, já sob o segundo capítulo da presidência de Fernando Henrique, o câmbio deixou a âncora e passou a flutuar, no meio de uma crise de confiança e de contágio internacional. A flutuação não apagou o Real; redefiniu-o. Quem havia vendido a paridade como eternidade teve de explicar o mundo. Quem havia previsto o colapso da moeda teve de explicar a sobrevivência. O episódio ensina que 1994 não foi um feitiço definitivo. Foi um regime de política econômica que se transformou para não morrer.

Juros, dívida pública e vulnerabilidade externa ocuparam o centro da crítica. O emprego industrial e a pauta de exportação viraram prova em tribunais de opinião. Nada disso devolve a hiperinflação como se ela fosse nostalgia aceitável. Devolve, isso sim, a obrigação de narrar custos. Estabilidade não é silêncio sobre o desemprego. Denúncia do desemprego não é elogio do supermercado remarcado.

Houve continuidade e ruptura nos governos seguintes: a moeda permaneceu, a âncora não, as prioridades sociais se deslocaram. Essa história posterior não cabe toda nesta ficha. Cabe o aviso de que o Real é origem de um convívio, não altar de um partido.

Nem santuário, nem pasquim

A memória se divide entre quem data o nascimento da vida adulta do país em 1994 e quem data ali o nascimento de um modelo que teria encolhido o sonho industrial. A linha do tempo recusa o santuário e o pasquim. Registra a URV, o Real, o alívio do balcão, o debate dos juros, a flutuação de 1999 e a persistência da moeda como fato. Outros conflitos puderam ser nomeados com números que duravam até o fim do mês. Isso não é pouco. Também não é tudo. O Brasil que saiu da hiperinflação continuou sendo o Brasil da terra, da cor e do porão não resolvido. Só que, a partir de 1994, a conversa sobre esses temas deixou de ser interrompida, toda semana, pelo preço do feijão no corredor.

Causas

Hiperinflação crônica e a janela política do governo Itamar.

Consequências

Estabilidade de preços; realinhamento eleitoral; pautas sociais em outro patamar de cálculo.

Importância histórica

Ruptura do regime de inflação que organizava o Brasil desde os anos 1980.