Dionísia Gonçalves Pinto nasceu em 1810, em Papari, Rio Grande do Norte — vila que hoje leva o nome que ela escolheu para a vida pública: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Escreveu sobre educação de meninas, sobre os direitos das mulheres e, nas chaves do seu século, sobre indígenas e escravizados. Viveu no Recife, no Rio e na Europa. Morreu em 1885, em Rouen. Não foi a única voz feminina do Império. É a mais canônica de um campo que a política oitocentista tratou como exceção. Esta leitura recusa o altar da “primeira feminista” e recusa o apagamento. Situa uma intelectual potiguar nos limites de classe, de raça e de império que o feminismo do século XIX não rompeu por completo.
O cânone escolar que a redescobriu no século XX precisava de uma antepassada. A pesquisa da UFRN e de outras universidades devolveu textos, datas e nuances. Devolver nuance não é diminuir. É impedir que Nísia vire estátua oca.
Papari, Recife e a professora
A biografia começa no Norte. Família letrada, casamento precoce, ruptura, o nome novo. No Recife da Regência e do início do Segundo Reinado, Nísia abriu escola para meninas e publicou. Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, circulou como manifesto. Manuais repetem que seria tradução de Mary Wollstonecraft. Especialistas — Constância Lima Duarte entre elas — argumentam por uma adaptação livre, com invenção e com o calor de um debate local. Esta ficha não inventa o percentual de originalidade. Registra a disputa e o fato: uma mulher brasileira publicou, em português, um ataque ao cativeiro doméstico das livres.
Ser professora era ofício e era política. Educar a menina para além do bordado ameaçava o arranjo da casa grande letrada. Não ameaçava, sozinho, a senzala. Nísia escreveu contra a escravidão em textos posteriores, sem que isso a transforme em abolicionista de quilombo. O feminismo oitocentista brasileiro é letrado, em graus variados antiescravista, e limitado pelo lugar de quem pode imprimir.
Trabalhadoras pretas do Recife — quitandeiras, lavadeiras, escravizadas de ganho — sustentavam a cidade em que a escola funcionava. Raramente eram o sujeito do tratado. Essa ausência é o limite, não um detalhe.
Rio, imprensa e o salão que vigia
No Rio, a imprensa e o salão ofereceram palco e mordaça. Nísia circulou entre letrados, viajou, publicou opúsculos e enfrentou o ridículo que o século reservava à mulher autora. A Biblioteca Nacional guarda edições e rastros dessa circulação. O Arquivo Nacional, menos: a vida de uma professora não produz o mesmo volume de ofícios que a de um ministro. A assimetria do arquivo é ela mesma um dado.
A corte imperial tolerava a exceção brilhante e recusava a regra. Uma Nísia podia ser citada; mil meninas pobres não seriam escolarizadas. Índias aldeadas e meninas pretas livres continuaram à margem do projeto de “educação feminina” que o Império, quando o enunciava, pensava branca e urbana. Nísia não inventou essa margem. Também não a desfez.
Há quem a leia como isolada genial. Há quem a insira numa rede de educadoras, de jornais femininos e de tradutoras. A segunda leitura é mais justa. Isolar a gênia é o gesto que o patriarcado prefere: uma, para não haver muitas.
Europa: exílio, prestígio e distância
A longa estadia europeia — França, Itália, outros destinos do roteiro letrado — deu a Nísia o que o Brasil raramente dava a uma autora: público, revistas, a possibilidade de ser lida sem o imediato escárnio da província. Escreveu em mais de um idioma de prestígio. Visitou escolas. Comparou. Trouxe de volta, em cartas e livros, um olhar que às vezes confirma o atraso brasileiro e às vezes o usa para criticar a Europa. Esse vaivém é típico do letrado periférico. Não é traição. É o preço do passaporte intelectual.
A distância também afasta. O feminismo que se conversa em Paris não é o da roça potiguar nem o do eito. Nísia escreveu A lágrima de um Caeté e outros textos em que o indígena aparece como figura de comoção e de denúncia. A figura é política e é, ainda, mediada pelo olhar da viajante letrada. Povos do Rio Grande do Norte e do interior nordestino não a elegeram porta-voz. Podem, hoje, reler o poema sem dever-lhe obediência.
Mulheres europeias do mesmo ciclo — saint-simonianas, educadoras, viajantes — formaram o horizonte de comparação. Homens brasileiros do mesmo ciclo preferiram, em geral, o silêncio ou o elogio condescendente.
Os limites do feminismo oitocentista
Dizer os limites não é anacronismo punitivo. É descrição. O horizonte de Nísia é o da cidadã letrada: instrução, dignidade conjugal, voz pública. Não é o voto — que o Império negava também à maioria dos homens — nem a reforma agrária, nem a aliança orgânica com a mulher escravizada. Houve trechos de denúncia do cativeiro. Houve o teto de quem escreve para pares. O sufragismo de Bertha Lutz, no século seguinte, partirá de outro chão: República, ciência, federação. Continua, porém, o problema da classe.
Negras livres e libertas do oitocentos organizaram irmandades, juntas de alforria e o comércio de rua. Essa política feminina raramente entra no capítulo “Nísia”. Deveria entrar no mesmo século, em fichas vizinhas. A linha do tempo que só cita a potiguar como origem das mulheres no Brasil repete o cânone que ela mesma sofreu: uma cadeira no panteão, o resto no porão.
Indígenas mulheres do Império — aldeadas, descidas, domésticas — atravessam inventários, não tratados pedagógicos. A educação que Nísia defendia quase nunca as imaginou como alunas plenas. Registrar isso é dever, não ajuste de contas.
Potiguar, nacional, incompleta
Nísia Floresta desloca a ideia de que o século XIX público foi só masculino. Não desloca, sozinha, a ideia de que foi só branco e só litoral. A vila de Papari, o Recife, o Rio e Rouen são quatro endereços de uma vida. São também um mapa de classe. A UFRN, a Biblioteca Nacional e a pesquisa de gênero no oitocentos sustentam hoje a leitura densa. A estátua fácil sustenta o vestibular.
Há quem a queira mãe de todas as lutas. Há quem a recuse como dama de salão. A linha do tempo a registra como intelectual de um feminismo possível no Império: o da escola, da imprensa e do limite. Sem ela, o oitocentos fica mais mudo. Com ela apenas, o oitocentos das pretas, das índias e das trabalhadoras sem letra continua mudo. As duas frases precisam permanecer no mesmo parágrafo.
Causas
Imprensa, convívio com ideias ilustradas e a experiência de professora.
Consequências
Referência para a história das mulheres e da educação; redescoberta acadêmica no século XX.
Importância histórica
Inscreve o pensamento feminino letrado no Império.