Entre 1983 e 1984, comícios em capitais pediram eleição direta para presidente da República. A campanha das Diretas Já misturou partidos de oposição, artistas, sindicatos, comunidades eclesiais, profissionais liberais e uma multidão que a ditadura já não conseguia explicar como minoritaria. O amarelo da camiseta virou cor de transição. A emenda Dante de Oliveira, que restabeleceria o voto direto na sucessão, não alcançou no Congresso a maioria qualificada. Tancredo Neves e José Sarney conduziriam, em seguida, a passagem pelo colégio eleitoral. A rua não elegeu o presidente em 1985. Impôs, porém, o tom da Nova República. Há quem leia as Diretas como derrota parlamentar. Há quem as leia como vitória cultural. As duas leituras são compatíveis e, juntas, mais verdadeiras do que cada uma isolada.
A frustração de 1984 é parte do acontecimento, não um pós-escrito. Quem esteve na avenida viveu a véspera como se o regime fosse cair no plenário. O plenário não caiu. Depois da votação, ninguém governaria como se o povo não tivesse aparecido. O colégio eleitoral de 1985 já era um teatro vigiado pela memória das praças.
A rua como escola
Ulysses Guimarães deu ao movimento a cara do Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Leonel Brizola trouxe o trabalhismo de massa e o rancor da Legalidade. Luiz Inácio Lula da Silva trouxe o ABC e o novo sindicalismo. Artistas ocuparam o palanque e a televisão ainda sob resíduos de controle. Igrejas, sobretudo as comunidades eclesiais de base e setores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, emprestaram rede e linguagem de direitos. Estudantes e donas de casa, metalúrgicos e funcionários públicos aprenderam a cantar o mesmo refrão sem serem o mesmo partido.
A pedagogia importava tanto quanto a cláusula constitucional. Num país de inflação alta, de anistia incompleta e de memória de porão, ensinar que presidente se escolhe na urna foi um curso intensivo de cidadania. A ditadura respondera com a abertura lenta, gradual e segura. As Diretas responderam com a impaciência visível. Essa impaciência não era unânime: havia medo de radicalização, adesão residual ao regime e um centrão ainda sem esse nome, disposto a negociar a transição sem devolver o voto já.
Os comícios de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras capitais produziram imagens que a imprensa, enfim mais solta, multiplicou. A escala impressiona e não deve virar número inventado: foram as maiores concentrações cívicas do fim do regime, com variações locais e com a presença desigual do interior. O Brasil das Diretas foi, sobretudo, o Brasil das cidades que cabiam na televisão. Isso limita e não anula.
A emenda que não passou
Dante de Oliveira, deputado mato-grossense, deu o nome à proposta. O rito no Congresso exigia quórum que a oposição não fechou. Ausências, cálculos de sobrevivência e a pressão do Palácio e do Alto-Comando pesaram. A derrota parlamentar foi nítida. Transformá-la em prova de que a rua não existiu é desonestidade. Transformar a rua em eleição já vencida é lenda. Entre as duas frases cabe o arquivo: discursos, listas de presença, editoriais e o silêncio dos que faltaram.
O regime ganhara tempo, não legitimidade. A sucessão militar clássica tornara-se impensável no antigo estilo. A saída foi o entendimento: Aliança Democrática, chapa Tancredo-Sarney, colégio eleitoral, promessa de Nova República. Dante de Oliveira permaneceu o nome da cláusula que a rua quis e o plenário negou; a biografia do deputado não deve tapar o coletivo que lotou a avenida, mas o rito parlamentar tem rosto, e o rosto é o dele. Tancredo, mineiro de pacto, personificou a transição possível. Sarney, vindo da área que sustentara o regime, personificou o preço do acordo. A chapa era o retrato da derrota das Diretas e, ao mesmo tempo, o seu efeito: sem as praças, o entendimento teria sido outro, mais estreito, mais caserna.
Tancredo, Sarney e a posse torta
Tancredo foi eleito no colégio e não tomou posse. A doença, a morte e o luto nacional misturaram emoção e cálculo. José Sarney assumiu a presidência. A Nova República nasceu torta: civil, híbrida, sem ruptura judicial com o passado, com a inflação ainda no centro da vida e com a Constituinte no horizonte. Quem esperava o palanque das Diretas no Planalto recebeu o pacto. Quem temia o palanque recebeu o pacto também, e por isso o aceitou.
Há amargura persistente na memória de 1984: a ideia de que o povo foi enganado no corredor. Há leitura institucional de que a transição negociada evitou aventura. As duas falas descrevem atores reais — militantes, generais, empresários, bispos, diretórios. Não se resolve a tensão com um adjetivo. Registra-se que 1985 não foi 1984, e que 1984 tornou 1985 diferente do que teria sido 1982.
A Constituição de 1988 escreveria, em parte, o que a emenda não conseguiu votar: a cidadania como regra, o voto do analfabeto já encaminhado, o presidencialismo de sufrágio amplo. As Diretas não são a Constituinte. São a rua que tornou a Constituinte politicamente obrigatória.
Vitória cultural, derrota do placar
Chamar as Diretas só de fracasso é adotar o diário da sessão. Chamar só de vitória é adotar o cartaz. A campanha venceu o medo de aparecer e perdeu a cláusula naquele ano. Tancredo e Sarney são o desfecho institucional dessa equação, não o seu contrário. A linha do tempo fecha o ciclo da ditadura na avenida e abre o ciclo constituinte no mesmo movimento, sem fingir que o plenário obedeceu à praça. A praça, porém, não voltou para casa como se nada tivesse dito. O dito ficou: presidente, daqui por diante, seria palavra que a rua reivindicava pronunciar.
Causas
Cansaco da ditadura, crise econômica e a articulação oposicionista.
Consequências
Transição negociada; a Constituição de 1988 como desfecho institucional.
Importância histórica
Maior mobilização cívica de massas do fim do regime militar.