Entre 10 e 16 de novembro de 1904, o Rio de Janeiro virou barricada. A obrigatoriedade da vacinação antivariólica, somada às reformas que derrubavam cortiços, inflamou o centro e a zona portuária. Houve mortos, prisões e o recuo tático da obrigatoriedade. O episódio não é aula de ignorância popular. É política do corpo e da cidade. Oswaldo Cruz, à frente da Diretoria Geral de Saúde Pública, e Pereira Passos, no paço, personificam higiene e bota-abaixo. Os moradores dos cortiços personificam o custo. Esta leitura ouve os dois lados sem transformar a vacina em veneno nem o Estado em anjo.
A varíola matava. A vacina, como técnica, era um bem. O modo de aplicá-la — casa adentro, com polícia, no mesmo mês em que a picareta abria a Avenida Central — era um governo. Distinguir as duas frases é o mínimo de história da saúde.
Higiene de Estado, não só seringa
Rodrigues Alves queria uma capital “civilizada” para o café e para o crédito. Passos rasgou quarteirões. Cruz mandou brigadas sanitárias. A imprensa de oposição misturou rumor, sátira e defesa da inviolabilidade do domicílio. A Biblioteca Nacional guarda os jornais daquela semana: caricatura do médico, pânico da marca, ódio ao oficial de justiça. A Casa de Oswaldo Cruz e a Fiocruz, depois, organizaram o arquivo da campanha e o do próprio Cruz. Ler só esse arquivo produz o herói da ciência. Ler só a rua produz o povo sábio. A história pede os dois maços.
Havia medo real. Havia memória de vacinas mal conservadas, de coercão e de médicos que tratavam o pobre como foco. Havia também recusa política de uma República que modernizava sem voto do analfabeto e sem teto para quem a modernização despejava. Sidney Chalhoub, Nicolau Sevcenko e José Murilo de Carvalho, em chaves distintas, deslocaram o foco da “superstição” para a cidade desigual. O deslocamento pegou. Ainda há quem prefira a fábula do povo atrasado.
Trabalhadores do porto, estivadores, mulheres de cortiço e militares de baixa patente cruzaram a revolta. Um motim castrense paralelo complicou o quadro: não foi só higiene. Foi crise de legitimidade da Primeira República no seu cartão-postal.
Cortiços, raça e o bota-abaixo
O cortiço do centro era moradia preta, portuguesa pobre, nordestina, de ofício miúdo. Não era o convento da doença que o relatório sanitário desenhava. Era casa, trabalho e parentesco. Derrubá-lo para abrir avenida era política racial sem a palavra raça no decreto. Pretos e pardos, libertos de ontem, pagaram o progresso com o endereço. Mulheres chefes de casa — costureiras, lavadeiras, meretrizes sob o vocabulário da polícia — perderam o quarto e ganharam o sermão da higiene.
A vacina obrigatória autorizava o agente a entrar. No mesmo gesto, o Estado tocava o braço e o quarto. Para quem lembrava o tronco e o capataz, o gesto não era neutro. Isso não prova que a vacina fosse um plano de extermínio. Prova que a confiança se constrói com cidadania, não com decreto. Índios aldeados e migrantes indígenas do interior, poucos no centro do Rio, não foram o sujeito da revolta. Foram, em outras capitais, alvo do mesmo sanitário que os via como foco. A ficha do Rio não deve apagá-los do século da higiene.
Operários de ofícios urbanos — carroceiros, pedreiros da própria reforma — construíram a avenida que os expulsava. A ironia é clássica e é documentada. O Arquivo Nacional e o Arquivo Geral da Cidade do Rio reúnem plantas, despejos e processos-crime da semana.
Cruz, Passos e o recuo
Oswaldo Cruz não era um vilão de revista. Era um bacteriologista de Estado, formado na escola pasteuriana, convencido de que a cidade se salvava por campanha. Pereira Passos não era só o prefeito da picareta. Era o urbanista de uma elite que queria Paris na Guanabara e não queria ver o porto. Juntar os dois nomes no mesmo novembro explica a explosão. Separá-los para salvar a ciência e condenar só o prefeito é conforto falso. A higiene e o bota-abaixo foram política única.
O governo recuou da obrigatoriedade. Não recuou da reforma. O centro continuou a ser limpo para o capital. A vacina voltaria, em outras chaves, ao longo do século. A Fiocruz se tornaria instituição de ponta. Nenhuma dessas continuações apaga 1904. Nenhuma transforma 1904 em argumento contra imunização. A linha do tempo recusa o sequestro antivacina do episódio tanto quanto recusa o sequestro higienista.
Há debate sobre o saldo de mortos e sobre o peso relativo da vacina e do despejo na eclosão. Contagens de jornais divergem. O honesto é a ordem: dezenas de mortos, centenas de presos, um recuo legal e uma cidade que não voltou atrás no mapa. Números mais precisos dependem da série e do critério.
Nem atraso, nem elogio da barricada
A revolta teve rumor infundado e teve razão. Teve saque e teve política. Teve xenofobia de rua e teve solidariedade de cortiço. Santificá-la como ensaio revolucionário é tão preguiçoso quanto chamá-la de motim de ignorantes. Foi uma semana em que o Rio pobre ensinou que o corpo não é território vazio do decreto. Ensinou também os limites de uma revolta sem partido, sem pauta agrária e sem continuidade: a República absorveu o susto e seguiu.
Mulheres aparecem nos inquéritos como gritadoras, como donas de quarto e como alvo de revista policial. Aparecem pouco como teóricas da saúde. A teoria, porém, estava na prática: recusar a entrada, esconder o filho, negociar o horário. Essa política miúda é história.
Pretos velhos da cidade — a geração que vira 1888 — leram 1904 com outra memória. A República que os chamava de cidadãos os tratava como foco. A Chibata, em 1910, completaria a lição a bordo. 1904 e 1910 são irmãos: modernidade técnica, disciplina de pele.
A cidade que ficou
A Avenida Central — depois Rio Branco — é o monumento do vencedor. Os cortiços que sumiram são o monumento do vencido. Entre os dois, a Casa de Oswaldo Cruz ensina a campanha sanitária com o rigor que 1904 cobrou e nem sempre recebeu. A história pública deve visitar o museu e a planta do despejo. Deve dizer que a vacina contra a varíola salvou vidas e que o modo de 1904 produziu ódio duradouro.
Há quem cite a revolta para atacar qualquer campanha. Há quem a cite para rir do povo. A linha do tempo a registra como encontro explosivo de ciência de Estado e cidade popular. Sem Cruz, a varíola ganha. Sem os cortiços, a República mente. As duas frases cabem no mesmo novembro.
Causas
Lei da vacina obrigatória, destruição de habitações e o autoritarismo sanitário.
Consequências
Recuo da obrigatoriedade; continuidade da reforma urbana; memória ambígua da saúde pública.
Importância histórica
Encontro explosivo de ciência de Estado e cidade popular.