Brasil Império · 1822–1824

Guerras da Independência e o 2 de Julho baiano

O 2 de julho de 1823, em Salvador, celebra a saída das tropas portuguesas. No Norte e no Cisplatino, a adesão ao Império foi militar e diplomática, com mortes que o feriado nacional do Sete de Setembro raramente lista.

O Sete de Setembro que o quadro fixou é uma condensação. A independência do Brasil foi também guerra: cerco, fome, adesão forçada, marinha contratada e mortos que o feriado nacional raramente lista. Na Bahia, o 2 de julho de 1823 celebra a saída das tropas portuguesas de Salvador. No Grão-Pará e no Maranhão, a adesão ao Rio se fez com sangue e com a esquadra de Cochrane. Na Cisplatina, a disputa pelo Prata não cabia no grito do Ipiranga. Esta leitura trata 1822–1824 como conflito armado, não como decreto do Centro-Sul. Sem a guerra, a soberania teria sido um papel de paulistas e mineiros.

Independência sem abolição. Independência sem consulta aos povos indígenas. Independência com um Bragança no trono. Esses limites não anulam o evento: qualificam-no. Qualificam, sobretudo, quem combateu e quem só assinou.

O Recôncavo e o 2 de Julho

Salvador permaneceu portuguesa quando o Rio já falava em Império. O Recôncavo — Cachoeira, São Félix, as vilas do açúcar — articulou juntas, abastecimento e tropa. Pretos libertos, escravizados sob promessa, lavradores, indígenas aldeados e senhores descontentes formaram um exército irregular. A cidade sitiada passou fome. A saída das tropas, em julho de 1823, virou data maior da Bahia. O Arquivo Público do Estado da Bahia e o Museu do Dois de Julho guardam essa memória com uma densidade que o calendário nacional ainda trata como nota de rodapé.

Há debate sobre o grau de “povo” dessa guerra. Uma leitura insiste no protagonismo popular do Recôncavo e na ruptura com a praça portuguesa. Outra lembra o comando de proprietários, o medo da haitização e o silêncio sobre a liberdade dos que carregaram o fuzil. As duas frases cabem. A festa do 2 de Julho é popular e é seletiva. Celebra a expulsão da tropa lisboeta e raramente o cativeiro que continuou no engenho vitorioso.

Trabalhadores do porto, quitandeiras e canoeiros sustentaram o cerco tanto quanto o oficialato. Sem farinha e sem recado, não há sítio. A história militar que só conta o general perde o recado.

Maria Quitéria, Maria Felipa e o arquivo desigual

Maria Quitéria de Jesus alistou-se disfarçada e foi depois condecorada. O Império soube usá-la: heroína útil, exceção que confirmava o exército masculino. A documentação militar, embora enviesada, existe. Maria Felipa de Oliveira, negra de Itaparica, lidera na tradição local ações contra embarcações portuguesas. Os papéis são mais rarefeitos. Historiadores da Bahia têm recuperado o nome e, ao mesmo tempo, advertido contra o romance que inventa falas e números de barcos queimados. O gesto responsável é o mesmo usado para Dandara: registrar a lacuna e recusar o apagamento.

Mulheres do Recôncavo — vendedoras, lavadeiras, espiãs de beira-rio — atravessam ofícios e memórias de família. Não precisam de patente para ter sido guerra. A participação feminina na independência baiana é fato de sociedade, não de duas estátuas. Recuperá-las é trabalho de história pública recente, contra um panteão que preferia o príncipe a cavalo.

Indígenas do Recôncavo e do sertão próximo foram recrutados, aldeados ou expulsos conforme a conveniência da junta. A independência não lhes perguntou o mapa. Usou o braço e manteve a terra como problema para depois — um depois que a Lei de Terras e a República ainda não fecharam.

O Norte não aderiu por carta

No Maranhão e no Grão-Pará, juntas fiéis a Lisboa e tropa portuguesa recusaram o Rio. Lord Cochrane, a serviço do Império, operou no litoral norte com a lógica de uma guerra de porto: bloqueio, ameaça, adesão sob canhão. A unificação armada deixou mágoas provinciais que a Cabanagem, na década seguinte, reabriria com outros sujeitos. Tratar o Norte como “atraso em jurar” é linguagem da Corte. A linguagem local é a da ocupação.

O Arquivo Nacional reúne correspondência dessa campanha: pedidos de tropa, queixas de saque, listas de suspeitos. Pretos e indígenas do estuário foram, outra vez, carne de ambos os lados. A independência chegou ao rio como ordem de quem já havia perdido o hábito de negociar com a mata. A fatura demográfica e política dessa adesão forçada atravessa o oitocentos amazônico.

Há quem veja Cochrane como herói técnico da unidade. Há quem o veja como mercenário de um Império escravista. Ele foi as duas coisas: oficial eficaz e estrangeiro pago para costurar pela força o que o grito não costurou.

A Cisplatina e o Prata

A Banda Oriental — a Cisplatina anexada por João VI e disputada depois de 1822 — não era detalhe. Era o flanco platino de um Estado que se queria sucessor do Brasil joanino. A guerra contra as Províncias Unidas e a longa sangria que levaria, em 1828, ao reconhecimento do Uruguai mostram o limite da independência como festa. No Sul, independer foi também guerrear por um território que não se manteve.

Gaúchos, milícias, indígenas missioneiros e escravizados recrutados entram nessa conta com arquivos desiguais. A memória uruguaia e a brasileira não coincidem no herói. Tampouco precisam coincidir. Precisam admitir que 1822 não fechou o mapa. O Império nasceu em guerra externa e interna ao mesmo tempo.

Mulheres da campanha — vivandeiras, estancieiras, cativas de tropa — raramente entram no relatório. Entram na fome do deslocamento. A história militar clássica as trata como pano. A história social as devolve como logística.

Guerra, não só riacho

Regionalizar 1822 é um dever. São Paulo tem o riacho. A Bahia tem o 2 de Julho. O Norte tem a esquadra. O Prata tem a perda. Juntar as quatro frases impede a metonímia do quadro. A soberania reconhecida em 1825, mediada pela Grã-Bretanha e paga em libras, lembra que a guerra também se fatura no gabinete. O Arquivo Nacional e o Itamaraty guardam essa conta. O povo que combateu em Cachoeira e em Itaparica não a assinou.

Há leitura que vê na independência um pacto de elites com guerra periférica. Há leitura que vê, sobretudo na Bahia, uma revolução patriótica popular. A linha do tempo segura o pacto e a barricada. Sem o primeiro, o Império não se explica. Sem a segunda, o 2 de Julho vira folclore. Independência foi guerra. E a guerra, aqui, foi também de mulheres pretas, de índios recrutados e de trabalhadores do Recôncavo — sujeitos que o bronze do príncipe ainda faz de figurantes.

Causas

Recusa de juntas portuguesas em aceitar o Rio e a presença de tropas fiéis a Lisboa.

Consequências

Unificação armada do Império; mágoas provinciais; o panteão baiano da independência.

Importância histórica

Sem a guerra, 1822 teria sido um decreto do Centro-Sul.